sábado, 10 de janeiro de 2015

No radialismo rock, a eterna briga entre Departamento Comercial e Programação


No radialismo rock, departamento comercial e programação nunca se entenderam. E isso cria um grave problema no setor, obstruído pelos interesses comerciais que tentam estar acima das ideias e da personalidade e provocam sempre uma crise que enfraquece o segmento rock no rádio.

Há 30 anos, a Fluminense FM, conhecida rádio de rock niteroiense, com sua linguagem diferenciada e seu estilo de locução personalizado, teve problemas de se ampliar comercialmente. Ephrem Amora, superintendente do Grupo Fluminense de Comunicação, não queria dar investimentos ousados para a rádio, pensando em cortas gastos e só investir no estritamente necessário.

Com isso, a ascensão da Fluminense foi comprometida com o veto à produção de um jornal - Rock Press - , à criação de correspondentes no exterior (um único telefonema de Nova York era tratado como grave despesa pelo GFC) e a emissora ainda perdeu, para a popularesca 98 FM (hoje extinta), o patrocínio oficial do primeiro Rock In Rio, iniciado há 30 anos.

A Fluminense tinha o conhecimento de causa do rock que as "rádios rock" atuais não têm, e seu profissionalismo na cobertura do Rock In Rio foi impressionante. Luiz Antônio Mello e sua equipe, mesmo com dificuldades financeiras, deram uma cobertura ímpar e o jornalista, ainda, contribuiu como um consultor informal de artistas a serem convidados para o festival.

A emissora niteroiense tornou-se vítima das próprias limitações comerciais. A Fluminense FM, em sua fase clássica iniciada em 1982, encerrou em abril de 1985, como disse Luiz Antônio Mello no livro A Onda Maldita. No entanto, a Fluminense ainda conseguiu ser uma boa rádio de rock contemporâneo entre 1985 e começo de 1990, apesar de alguns deslizes.

Em contrapartida, rádios que, mesmo sob o rótulo de "rock", têm um departamento comercial bem mais forte que a programação, acabam até sobrevivendo e resistindo no ar por bastante tempo, mas têm sua credibilidade seriamente comprometida.

É o caso da 89 FM, de São Paulo, e da Rádio Cidade, do Rio de Janeiro. As duas rádios têm o repertório musical já previamente montado pela indústria fonográfica, O padrão de programação, com seus locutores animadinhos, não difere muito de qualquer rádio pop convencional, o que as faz desmerecer qualquer definição de rádios "diferenciadas" ou "especializadas em rock".

A 89 FM até tentou o tal projeto "antirrádio", espécie de versão "podada" da Fluminense FM com alguns ranços oitentistas da antiga Estácio FM, mas cometeu a contradição de primeiro descartar a locução animadinha e, já no fim dos anos 80, introduzi-la sob a desculpa da "ousadia" de colocar locutores que "falassem sorrindo".

As duas rádios se preocuparam mais com seu marketing e decidiram manter todos os defeitos que as derrubaram as emissoras em 2006. Preferiram ouvir a voz do departamento comercial, enquanto adotaram a atitude suicida de manter o mesmo tipo de mentalidade: locutores engraçadinos, ênfase no besteirol e espaço do rock limitado aos "grandes sucessos" e "músicas de trabalho".

A titulo de rádios especializadas de rock, isso matou as duas rádios. Elas só têm um departamento comercial forte, mas sua fraca programação só consegue vingar com um esquema de marketing que esbarra em sérias contradições, mas se beneficia pelo fato de que há pouca gente, entre radialistas, executivos e ouvintes, que entenda realmente de cultura rock.

VISÕES FORA DA REALIDADE

Com locutores de vozes afetadas - sobretudo os masculinos, claramente no estilo de rádios de pop adolescente - e repertório hit-parade, as rádios 89 FM e Rádio Cidade só conseguem algum êxito de audiência porque "roubaram" ouvintes de outras rádios, estas dedicadas ao pop ou ao brega.

Essa visão irrita alguns radiófilos, presos nas visões fora da realidade do departamento comercial, que em nome do marketing criam uma visão de público de rock que é completamente fora do que ocorre na realidade. Eles pensam que, só por entenderem de rádio, podem entender de rock, e no entanto eles nem de longe entendem a realidade do verdadeiro público de rock.

Mas o mercado publicitário vive mesmo de mentiras, de ficção e de desculpas esfarrapadas. Existe a história do estupro visto pelo mercado publicitário que ilustra bem o contexto, quando o mercado afirma que o estupro poderia ter sido um ato de amor se o estuprador não fosse tão afoito e a estuprada aceitasse os galanteios do rapaz.

Essa mentalidade de escritório tenta defender a tese de que as duas rádios são ouvidas por "roqueiros radicais da pesada", que apenas adotam uma "outra mentalidade". A realidade diz, no entanto, que as mesmas pessoas que ouviam brega e pop dançante nos seus estabelecimentos ou lares, estão ouvindo essas duas "rádios rock", enquanto os roqueiros de verdade evitam sua sintonia.

O público roqueiro é diferente do público de pop. O mercado radiofônico ignora isso e empurra para o público de rock programas debiloides (tipo "Do Balacobaco" e "Hora dos Perdidos") e locutores que falam como se estivessem se dirigindo às fãs femininas do One Direction (mesmo quando o cardápio musical inclui até AC/DC e Metallica).

O público de rock, independente de que "tribo" for, seja fã de rock mais antigo ou de rock mais novo, seja headbanger ou indie, skatista ou hippie, progressivo ou punk, não tolera locutores animadinhos, se irritando com o estilo de dicção que estes adotam. Todos, igualmente, não suportam ouvir locutores de voz afetada e cheios de gracinhas ocupando os estúdios de rádios roqueiras.

Outro detalhe é que os verdadeiros roqueiros não querem ouvir só os "sucessos". Se é para um público de rock ouvir apenas a canção de trabalho do novo álbum da banda tal, ele desliga o rádio porque essa canção ele já ouve com antecedência no MP3, no CD ou nas rádios de rock estrangeiras.

A arrogância, a visão cega e intransigente do mercado, dos departamentos comerciais ou de publicidade, fazem com que se empurrem essas verdadeiras aberrações radiofônicas com todas suas gafes, as quais seremos obrigados a aguentar não se sabe até quando.

RADIALISTAS DE ROCK FALAM FEITO GENTE COMUM

O que o mercado não sabe é que os verdadeiros radialistas de rock falam feito gente comum. Eles não podem ter a voz afetada de animadores de festas infantis ou de garotos-propagandas de lojas de eletrodomésticos. Isso derruba qualquer rádio que se diga de rock, e não adianta cara feia de produtores, ouvintes e adeptos.

Não é pedir demais para o mercado assumir que locução de rock tem a naturalidade de locutores comuns, mais ou menos quando um jornalista musical fala na TV. Sem entonações afetadas, gírias ou piadinhas, e sem aquele ar de "locutor gostosão" fazendo gracinhas nas fotos.

O verdadeiro locutor de rock, mesmo falando feito gente comum, pode ser facilmente compreendido pelo público jovem de rock. Basta ser claro e conciso no texto, simples e direto na locução, descontraído na medida certa sem partir para o perfil "engraçadinho".

Se as rádios que se dizem de rock não adotam um perfil diferente do adotado pelas rádios pop, elas se matam completamente. Poderão ter até alguns anos de sucesso relativo de audiência - nada excepcional, pois o rock está em baixa no rádio, mas que dá para manter as rádios em boa situação financeira - , mas isso se deve a um público não-roqueiro que quer ouvir rock de vez em quando.

UM CAMINHO A SEGUIR

Mas, a título de segmentação radiofônica, as "rádios rock" que adotam linguagem e mentalidade pop estão condenadas ao fracasso. Os adeptos dessas emissoras podem espernear e xingar, criar blogues ofensivos, mandar vírus por e-mail, entre outras grosserias que os adeptos da Rádio Cidade haviam feito aos detratores há cerca de 10, 15 anos atrás. Não irão convencer o contrário da realidade.

Com o tempo, essas rádios serão vistas como hesitantes, porque em alguns momentos elas querem ser mais pop, carregando no besteirol e nos locutores "engraçadinhos" e suas vozes afetadas, noutro querem ser mais rock, criando até especiais de duas horas com algum jornalista convidado. Essa fórmula "não ajuda nem sai de cima" pode vingar até alguns anos, mas logo depois decai.

É bom prestar atenção que uma das rádios extintas de 2014 foi a carioca Beat 98, que era sinônimo de sucesso absoluto e que, aos olhos do mercado radiofônico e de departamentos comerciais "donos da verdade", seria a última FM que alguém cogitaria fracassar, já que a Beat 98 seguia rigorosamente todas as regras comerciais em prol do sucesso radiofônico.

Portanto, as rádios 89 e a Rádio Cidade têm um caminho a seguir. Ou tentam compreender melhor a realidade do público roqueiro e eliminem todo o ranço de radialismo pop na linguagem e mentalidade, extinguindo programas de besteirol e tirando os locutores pop do seu quadro profissional e deixem de tocar só os sucessos, ou terão que abandonar o rock e assumirem que são pop de vez.

Do jeito que estão, a 89 e a Cidade tratam o roqueiro de maneira preconceituosa, caricata e não raro depreciativa. praticamente vendo o público de rock como sendo um bando de débeis mentais que só querem ouvir os "grandes sucessos" dez vezes ao dia e aceitam locutores que falem como animadores de festas infantis.

Seguir ao mesmo tempo dois caminhos opostos não é a receita do sucesso. A realidade mostra que não é o desejo das quatro paredes dos departamentos comerciais que vale, se a resposta do público vai contra contra as "verdades" do mercado. Mais do que entender de rádio, o especialista em rádio precisa entender o público que vai muito além de seus preconceitos.