quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

"Rádios rock" atoladas na total incompetência

"HORA DOS PERDIDOS", DA RÁDIO CIDADE - Ouvintes reclamam que, às vezes, o programa lembra FM O Dia.

Infelizmente, os defensores da Rádio Cidade e da paulista 89 FM têm mesmo que oferecer a cara a tapa. O retorno das duas rádios pode ter rendido um bom retorno de audiência, segundo dados oficiais, não se deve à adesão maciça de um público especializado de roqueiros, mas de fãs de pop e brega com alguma simpatia aos sucessos fáceis do rock.

O sucesso, portanto, é quantitativo, mas nem de longe é qualitativo. E isso é culpa das rádios, que retomaram rigorosamente os erros que as derrubaram em 2006, dando maior ênfase a locutores e programas que NADA TEM A VER com o perfil rock, que só conseguem roubar a audiência de outras rádios pop e bregas, mas não atraem um público realmente roqueiro.

Pouco adianta, se, numa 89 FM, há programas específicos apresentados por um Ricardo Alexandre ou por um Andreas Kisser, porque com toda a fachada "100% rock" (menos, menos) da emissora paulista, esses programas não são mais do que "ilhas isoladas" diante de um mar de imbecilidades e tolices, um "paiol de bobagens", como dizia o Paulo Ricardo do RPM.

Até um dos empresários da 89, o Neneto Camargo, tem mais voz para locutor de rádio rock do que o coordenador Tatola (espécie de "titio" dos emos que fala igual ao Rui Bala da Transamérica), como fui obrigado a admitir depois de ver uma reportagem sobre a emissora no Metrópolis da TV Cultura.

E ver que Tatola e Zé Luís são a "vitrine" de uma rádio que se autoproclama "rádio de rock séria" é estarrecedor. Ver a programação normal da 89 FM e, por conseguinte, da Rádio Cidade aqui no RJ, comandada por locutores incompetentes que falam igualzinho aos das piores rádios de pop dançante, é de fazer enfurecer até budista.

NÃO SE FAZ UMA RÁDIO DE ROCK COMO SE FAZ RÁDIOS DE POP

Não se pode trabalhar uma rádio de rock como quem trabalha uma rádio de pop. Se a demanda é jovem, ela é diferente no comportamento e hábitos. Mas como nem os adeptos da Cidade e 89 entendem de cultura rock - eles só entendem de DINHEIRO (diz o câmbio do dólar do dia para um ouvinte da 89 ou Cidade e ele tira de letra) - , então fica difícil esclarecer as coisas.

O grande problema é a miopia empresarial. Eles não sabem a diferença entre os fãs de Xuxa Meneghel e os do Ratos do Porão. Aí criam rádios parecidinhas na linguagem, na mentalidade, nas vinhetas, na mesma conduta debiloide, tratando os ouvintes igualmente feito débeis-mentais alucinados, e só diferem no "vitrolão", e, mesmo assim, não muito.

É só voltarmos aos anos 90 e confrontarmos o que a Jovem Pan 2 (que, arrogante, havia comemorado a queda da Fluminense FM) e a Rádio Cidade "roqueira" tocavam, e a semelhança dos repertórios musicais é praticamente a mesma.

As duas investiam igualmente em nomes como Skank, Cidade Negra, Alanis Morissette, No Doubt,Titãs, Capital Inicial, Lenny Kravitz e, sobretudo, Mamonas Assassinas, só tendo algumas diferenças pontuais. Se a Jovem Pan 2 tocava, por exemplo, Whigfield, Britney Spears, Double You e Undercover, a Cidade atacava com Offspring, Alice In Chains, Raimundos e Midnight Oil.

Até o Ostheobaldo, uma das "bandas-sensação" da Rádio Cidade, mais parecia um Fincabaute - "banda-sensação" da Jovem Pan 2 - à beira de um ataque de nervos. A mesma postura, as mesmas gracinhas, a mesma pose, só que um tentando ser "mais roqueiro que o outro", ou não seria o outro querendo ser "mais praiano que o primeiro"?

As rádios se atolam na mesma mentalidade, e a coisa ficou tão escancarada que veio a migração de locutores de rádios bregas e pop para não só emporcalharem os microfones com suas vozes de animadores de festinhas infantis, mas também coordenarem e comandarem a programação. E aí é que a máscara cai, mas se mostrar essa realidade o pessoal não gosta.

A realidade é essa. As rádios já têm o repertório montado previamente pelas gravadoras. Até as chamadas "bandas alternativas" são tocadas apenas pelas chamadas "músicas de trabalho", que já são as escolhidas pelas gravadoras para trabalhar o material. Nada menos alternativo.

Claro que daria um enorme livro só para enumerar os defeitos dessas rádios. Mas seus adeptos não querem saber. Acham que esses defeitos existem porque as rádios precisam "viabilizar audiência". E arrastam essa desculpa durante anos, não se sabe até quando.

Essas pessoas não entendem de rock. Aliás, o mercado não conhece o público de rock e o que eles pensam, fazem e querem. O mercado, turrão, quer impor regras, normas, procedimentos, e nós é que temos que aceitar tudo e garantir seu sucesso, pouco importando se essas regras vão contra a realidade da cultura rock no mundo ou mesmo no próprio Brasil.

Os adeptos da 89 e Cidade não sabem a diferença entre uma guitarra distorcida e um barulho de britadeira na rua. Mas se acham "gênios" por acreditarem em rádios que são ao mesmo tempo pop e rock sem serem "pop rock" e que são "radicalmente rock" sem serem radicalmente rock. E ainda se irritam quando são contrariados. Que "rádio de rock" eles querem, afinal? Eu não sei.

Enquanto as ditas "rádios rock" não representarem um diferencial de linguagem, de mentalidade ou de estado de espírito, substituindo locutores poperó por outros que falem feito gente, a 89 e a Cidade vão ficar chupando dedo alimentando seu sucesso de audiência com ouvintes de pop e brega que apenas estão em busca de novidades.

Se tudo ficar como está, nada feito: a Cidade e 89 terão que se admitir que são "pop rock" devido aos limites impostos pelos interesses comerciais, que, nesse quadro de incertezas que atravessa o rádio, garantia de sucesso hoje, mas certeza de falência amanhã. Quem é que ia imaginar que a Beat 98 um dia seria extinta, cumprindo rigorosamente os tais "interesses comerciais"?

Mantendo tudo como está, as ditas "rádios rock" terão que reconhecer que nenhum roqueiro autêntico lhes dá ouvidos, porque roqueiro de verdade não se contenta com pouco, ouvindo só os "grandes sucessos" roqueiros e as irritantes piadinhas dos locutores "engraçadinhos" que falam feito animadores de festinhas infantis.

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