quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Nervosos, defensores da Rádio Cidade podem dar tiro no pé


Tem gente que acredita em Papai Noel. Há quem acredite no Coelhinho da Páscoa que é ovíparo e põe ovos de chocolate. Há quem acredite na Fada Madrinha. E há quem acredite que roqueiro é quem ouve a Rádio Cidade.

Quando ocorreu a notícia de que a Rádio Cidade trabalha uma afiliada na Região dos Lagos, foi eu só colocar uma observação realista para ser espinafrado por radiófilos para os quais só valem os dados colhidos pelo departamento comercial, com seus mitos e ilusões publicitárias.

São pessoas que até entendem de rádio e de bastidores de rádio, mas não de rock. E vem com desculpas, ataques, declarações irritadas, ironias, que podem pôr a perder a causa que eles mesmos defendem.

Minhas críticas não invalidam a marca Rádio Cidade. Eu não disse "a rádio vai se dar mal". O que eu quis dizer é o que acontece no Rio de Janeiro: a Rádio Cidade está roubando audiência de rádios convencionais.

Musicalmente exigentes, os roqueiros nunca iriam aceitar ouvir o "mais do mesmo" na Cidade e os mais jovens, com muito mais informação a seu acesso, encontram outros caminhos bem mais interessantes para ouvir rock. Os roqueiros estão fora do rádio do RJ, enquanto a Kiss FM some e aparece sem ainda implantar uma programação própria no Estado.

O que preocupa é que as pessoas não entendem a realidade. Os adeptos da Cidade querem pensar a realidade conforme seus umbigos. Querem dar o juízo final com seus egos. E isso as torna reacionárias, algo preocupante num Estado que elegeu Jair Bolsonaro e num cenário radiofônico nacional que mostra uma Jovem Pan AM altamente reacionária.

Nota-se um nervosismo neurótico nos adeptos da Rádio Cidade. Eles sabem que o rock anda em baixa no rádio brasileiro e não chegou sequer às 50 mais tocadas. Mas acham que a solução está numa rádio sem vocação alguma para o gênero, que só toca "sucessos" e a cada vez mais demonstra ter uma equipe sem qualquer especialização para o rock.

Os fatos mostram mais do que declarações do departamento comercial. A Rádio Cidade não derrubou a Kiss FM, ela eventualmente fica fora do ar por problemas técnicos, está em fase experimental e precisa resolver finanças e burocracia para modernizar equipamentos.

Em compensação, depois do ressurgimento da Rádio Cidade, quem sucumbiu foi a Beat 98, uma rádio popularesca, que misturava "funk", "pagode romântico" e hip hop e que há mas de três décadas não guarda um vestígio sequer da histórica Eldo Pop que dominou o radialismo rock dos anos 70.

As pessoas ficam nervosas por nada e, por mais que insistam em seus argumentos, acabarão dando um tiro no pé. Isso porque não fazem sentido desculpas do tipo "a Rádio Cidade toca outro tipo de rock", "o rock da Cidade é contemporâneo", "a rádio não ousa porque precisa viabilizar audiência" ou "a rádio é assim ou assado porque precisa ser mais direta com um público mais jovem".

E isso tudo com as transformações que a cultura rock acontece no mundo e até no Brasil. Os roqueiros estão preferindo mais os arquivos de áudio do You Tube. Ninguém vai ouvir uma rádio só por causa de uns sucessinhos roqueiros ou semi-roqueiros convencionais e aguentar piadas idiotas de locutores com vozes de animadores infantis tratando os ouvintes feito débeis mentais.

Ver que a realidade irrita as pessoas e as faz ter mania de argumentar conforme seus interesses é algo que já provocou efeitos danosos na sociedade, vide, por exemplo, o caso da revista Veja e suas paranoias antissociais.

Alguém diz para os adeptos da Rádio Cidade que a realidade do público roqueiro é bem diferente do nível de compreensão de quem vive trancado nas quatro paredes de seus escritórios comerciais e eles reagem xingando de "Zé Ruela" e fazendo esnobismo, como se eles fossem vitoriosos nos seus pontos de vista. Não são.

Isso é tão certo que o surto de reacionarismo extremo dos adeptos da suposta "rádio rock", entre 2001 e 2005, fez a rádio perder audiência e credibilidade. Gente esquentadinha não dá bom marketing. Isso é uma certeza absoluta. Quem perde a cabeça põe tudo a perder, por mais que ele se ache com a razão e tente responder de maneira insistente e agressiva.

A realidade é que a Rádio Cidade, quando muito, é apenas uma rádio de POP ROCK. E que, a exemplo da 89 FM de São Paulo, mostram mais proximidade com a ciranda das rádios convencionais até no trânsito de locutores.

Notícias provam isso: a 89 empregou um ex-locutor da Jovem Pan 2, a Rádio Cidade empregou para a gerência artística um ex-locutor da Beat 98, fatos concretos, mas se alguém disser que a 89 e a Cidade participam da ciranda das rádios pop e brega isso é visto como "ofensa".

Enquanto isso, num texto da Coluna do LAM, Luiz Antônio Mello, que lançou as teorias sobre o que é trabalhar uma verdadeira rádio de rock, referente à morte do ex-beatle John Lennon, definiu a Rádio Cidade como "adorável e muito saudosa", como se a emissora fosse coisa do passado.

A Rádio Cidade nunca vai fugir do estigma pop. Ela sempre teve mentalidade pop, mesmo nos seus momentos mais nervosos. Aliás, o nervosismo dos que queriam vê-la como rádio do "rock à moda da casa" poderão dar um tiro no pé, porque o mercado não tolera pessoas temperamentais, mesmo quando elas mesmas é que tomam as rédeas.

E tudo isso quando o rádio FM de hoje é imprevisível, vivendo uma crise que nem os mais ambiciosos gerentes artísticos conseguem desmentir. Ficar esquentadinho porque ninguém vê na Rádio Cidade uma rádio de rock séria (e nunca foi) é chutar o pau da barraca e derrubar tudo que estiver à frente.

O jeito é se conformar e aceitar os limites da Rádio Cidade dentro do contexto do radialismo pop, admitindo que a rádio só toca sucessos de pop rock dos anos 90 e 2000 para fãs de Thiaguinho, Anitta, Luan Santana e Justin Bieber. São os efeitos do mercado. Forçar no faz-de-conta "radical" é perda de tempo.

3 comentários:

  1. Alex, eu lhe proponho algo: faça 10 minutos de programação de uma rádio que seja da sua vontade, do seu gosto. Simule locução, escolha músicas, simule propagandas a vinhetas. Dez minutos. Dez minutos com o que você acha que pode ser a rádio ideal, sem as locuções débeis como você citou no texto. Sem a farofa que você ouve nas rádios comerciais. Repito: COMERCIAIS. Dez minutos. Dez minutos apenas. E suba para qualquer plataforma.

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  2. Onde assino ?? Perfeito !! Descrição maravilhosa e a única resposta dos Rockeiros é simplesmente NÃO OUVIR. Vivo entre RJ e SP e mesmo a Kiss tem hora que não da para ouvir, enche o saco. Seguimos sem ouvir a bosta da radio cidade que se diga de passagem é a melhor radio do Rio até o retorno da Kiss. Ahh o choro é livre mas vai chorar na Cantareira que está precisando.

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