quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Quer deixar sua marca no Rock Brasil? Não mande demos para a 89 FM e Rádio Cidade

SE A LEGIÃO URBANA TIVESSE SURGIDO HOJE, AS RÁDIOS 89 E CIDADE REJEITARIAM SUAS DEMOS.

Você que está formando uma banda musical e trabalha uma proposta musical consistente, bem elaborada e diferente das bandas que fazem sucesso, mesmo dentro de seu meio, um conselho: NÃO mande demos para as rádios 89 FM e Rádio Cidade.

Devemos parar de fingir crer que as duas rádios tratam o rock de maneira séria, porque, mesmo dentro do perfil mais contemporâneo, as duas rádios deixam muito a desejar na exploração desse perfil.

Para quem não sabe, rádios de rock contemporâneo de verdade foram a Fluminense FM, de Niterói, no ano de 1986, e a Brasil 2000 FM, de São Paulo, no ano de 1990. Muito distantes e muito superiores, em qualidade do que essas "Jovem Pan 2 com guitarras" que são a 89 e a Cidade que estão abaixo até do básico que deveriam ser rádios de rock contemporâneo.

As duas rádios nem estão interessadas em rock diferenciado, até porque seus locutores e produtores não são gente que realmente entenda de rock ou queira divulgar bandas de qualidade. O que as duas rádios tocam de bandas de qualidade é o que já faz muito sucesso mundialmente, como U2 e Foo Fighters.

Além disso, as duas rádios não declaram, mas estabelecem normas rígidas sobre o que deve ser uma nova banda de rock. Se a banda já lançou um álbum com bastante diferencial, com o mesmo impacto criativo que tiveram Legião Urbana, Fellini e Violeta de Outono, terá que diminuir seu ímpeto nos próximos álbuns.

Esse raciocínio é o mesmo do pop adolescente. Paciência, a 89 FM e a Rádio Cidade não escapam da lógica das rádios de pop adolescente, deve-se parar de ignorar essa dura realidade, e não fazer de conta que as duas emissoras estão longe da ciranda do radialismo pop mais convencional!

Nomes como Rihanna, Demi Lovato e Selena Gomez lançaram seus primeiros discos tentando algum diferencial no pop dançante, mas depois tiveram que seguir as rígidas regras pop ditadas pelos fenômenos Beyoncé Knowles, Shakira, Britney Spears etc.

Se a 89 e a Cidade recebem uma demo ou um álbum independente em que a banda soa bastante criativa e diferenciada, seus músicos são "aconselhados" a lapidar o som e seguir o som da moda, sob a alegação que o som é "muito bom, mas difícil" ("muito bom" é eufemismo para os locutores dizerem que odiaram a banda). É a regra do negócio!

Claro que todos são obedientes a esse processo e, se você é um roqueiro carneirinho, que faz todas as normas de maneira submissa, apesar de toda a pose de "rebelde" que mostra nas fotos, você não tem problemas de divulgar material nessas rádios e seguir o show business roqueiro comodamente, se preciso até abrindo para o Psirico em um evento de bloco em Salvador.

E há muita banda que antes era rebelde e tinha atitudes viscerais que hoje soa domesticada e acomodada, por causa desse mercadão comandado pelas duas rádios que, no fundo, não suportam haver roqueiros com neurônios e muito o que dizer de relevante.

Se a Legião Urbana tivesse surgido hoje e tivesse que mandar demos para a 89 e a Cidade, seus produtores reclamariam, chateados: "Cara, que letras complicadas são essas?", "Vocês deveriam soar algo entre Coldplay e Fall Out Boy, com esse som não dá para tocar", "Dessa demo, só presta 'Geração Coca-Cola', e olhe lá", "A mixagem está crua demais para nossos padrões", seriam os comentários.

Inútil haver o faz de conta de que as rádios aceitam sonoridades cruas e "difíceis" e que as bandas aceitas por essas rádios não seguem o som da moda. Na prática, todavia, o que se nota são rádios que ditam fórmulas e bandas que as seguem, obedientes.

Exemplo disso está em bandas como Malta e Aliados, que não diferem muito do que Restart e NX Zero fazem de "radical". E, apesar do visual headbanger e da pose de "viscerais", o Malta é tão carneirinho que faz letras piegas e foi se apresentar num evento ao lado de nomes como MC Guimé e MC Ludmila. Devem viajar para Salvador para abrir até mesmo para o É O Tchan.

E o que dizer dessas regras impostas em letras miúdas pelo "Temos Vagas" e "Cidade do Rock", que até a dupla breganeja Victor & Léo promete que vai seguir, quando o som da moda, para bandas emergentes de rock no país, é imitar Coldplay e 30 Seconds To Mars, grupo popularizado pelo fato de seu vocalista e guitarrista ser o ator Jared Leto?

Portanto, se a banda quiser deixar sua marca no Rock Brasil, evite rádios assim. Deixe vídeos "dormindo" no YouTube e vá fazer apresentações ao vivo. A visibilidade será pouca, o sucesso baixo, mas haverá maior liberdade artística que, cedo ou tarde, trarão maior destaque.

Se quiser um sucesso mais rápido, melhor será mandar demos para o exterior, como a BBC de Londres ou o jornal New Musical Express, que não exigem das bandas o "som do momento". Deve-se espelhar no caso do Velvet Underground, de início um grande fracasso comercial, mas depois uma das bandas seminais da História do Rock.

Mas se houver a tentação de mandar demos para a 89 e a Cidade, os músicos terão que se preparar para mudar o som conforme o modismo do momento, abrir para Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano e Mr. Catra no futuro (talvez até duetando com eles em um novo CD), e fazer o papel de palhaços diante de uma plateia revoltada que esperaria da banda um mínimo de diferencial.

As rádios 89 e Cidade são comerciais. E, como tais, estabelecem regras de mercado. E elas são muito cruéis e castradoras da liberdade de criação. Não se pode fingir que essas regras não existem.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Saudade de uma tendência: FM é entretenimento, cultura, música, AM é comunicação, futebol, notícia

Os caras mesmos criam uma tendência, e eu fui criado ouvindo essa tendência: FM é entretenimento, cultura, música, AM é comunicação, futebol, notícia, "o fato no ato", como dizia a saudosa JB AM. Aí os caras acabam com a tendência que eles mesmos criaram na década em que eu nasci, fazendo agora a festa de Fausto Silva e de Heródoto Barbeiro que dizem que FM não deve ser diferente de AM, e dos "pogreçistas" que afirmam que FM musical é alienação de música vinda "duzistêites". Aí tome blá blá blá populista demagógico, jabá futebolístico e jornalismo tendencioso no FM, e AMs entregues à picaretagem da fé, que depois também adentrou o FM. Só falta chegar a defensora de amarramento de pessoas em postes ao dial carioca, pra fechar a tampa do caixão do FM. Porque o cadáver já está fedendo. O cadáver do AM já foi enterrado pela incompetenta, com a transferência das AMs para o FM estendido.

E viva a MP3 FM!

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Casos de dupla e tripla transmissão de uma mesma grade inteira só no Sistema Globo de Rádio

CBN Rio em AM 860 e AM 1180 em 1993 e em alguns anos seguintes
CBN São Paulo em AM 780 e FM 90,5 desde a década de 1990
CBN Rio em AM 860 e FM 92,5 desde 4 de julho de 2005
Rádio Globo Rio em AM 1220 e FM 89,3 desde 4 de maio de 2010, mudando para FM 89,5 em 26 de fevereiro de 2011
Rádio Globo Rio em AM 1220, FM 98,1 e FM 89,5 desde hoje
Fora outros casos não citados ou lembrados. Favor, se houver mais coloque nos comentários.

E ainda: duplas, triplas e até tetra transmissões de futebol e Fórmula 1, como a tetra transmissão da Fórmula 1 e da Copa 2010 nas rádios CBN AM+FM e Globo AM+FM.

Será que vem aí a PENTA transmissão? Fórmula 1 nas rádios CBN AM+FM e Globo AM+FM+FM.

Tripla transmissão AM+FM+FM

Só digo uma coisa: é só no Brasil que pode haver uma rádio oligopolista que transmite ao mesmo tempo em AM e em DUAS FREQUÊNCIAS EM FM. E as 'otoridades' deixam. Depois a corja há 12 anos no poder ainda vem vomitar na minha cara palavras vãs de "democratização dos meios de comunicação".

Não me procurem para apoio algum.

Enquanto isso, nos 91,9...

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Rádio Cidade derrubou uma concorrente. E não foi a Kiss FM


Quem realmente ouve a Rádio Cidade? Roqueirões da pesada vestidos de jaqueta e pilotando motocicletas envenenadas? Alternativões da gema dotados da visão filosoficamente pessimista do mundo? Rebeldões raivosos de cabeça raspada que vivem de mal com o "sistema"?

Nenhum deles. A realidade mostra que o público que ouve a Rádio Cidade e aceita alguns sucessos manjados do rock e bandas mais comerciais do gênero nem de longe representa o público especializado em rock, mas tão somente um público que, de vez em quando, alimenta suas catarses com guitarras distorcidas e vozes guturais, mas sem ir fundo no "espírito do rock'n'roll".

A constatação se deu com a crise que atinge, pelo menos, quatro FMs ligadas ao pop convencional, sendo uma delas, a popularesca Beat 98, prestes a sair de sintonia na próxima semana, dando lugar a uma nova frequência da "Rádio Globo AM" FM, que deixará os 89,5, cujo destino não foi divulgado até agora.

Ela se deu depois que a Rádio Cidade voltou, depois de um bom tempo como OI FM, Jovem Pan 2 e 102,9 FM. A emissora voltou não adotando a linha assumidamente pop que a consagrou, mas o mesmo perfil "roqueiro" que havia "queimado" a rádio em 2006. Essa fase voltou com todos os defeitos e equívocos cometidos.

O sucesso que a emissora está tendo - que, na verdade, não é tanto assim, se observarmos que os institutos de pesquisa atribuem às emissoras FM uma audiência em média 60 vezes maior do que a real - se deve não pela conquista de um público especializado em rock, mas pela absorção de ouvintes de FMs convencionais.

Isso desmente claramente a reputação da Rádio Cidade como "roqueira", fazendo com que todas as tentativas de colocá-la na ciranda mercadológica das rádios de rock sérias seja em vão. Na prática, a Cidade continua tendo a mesma mentalidade e linguagem de qualquer rádio pop convencional, sem qualquer relação com o perfil roqueiro.

Isso é tão certo que a Rádio Cidade fez a primeira vítima numa rádio bem popularesca, a Beat 98, que tocava "funk" e "pagode romântico" e emendava com hip hop e pop dançante norte-americano. Um ex-coordenador da rádio foi justamente comandar a programação da Cidade. Ironicamente, a Beat 98 havia sido a "casa" dos ex-Cidade Rhoodes Dantas e Paulo Becker.

Diante do "fenômeno" Rádio Cidade - que se destaca mais pela linguagem animada de locutores do que de qualquer alusão ao rock - , outras rádios começam a sofrer uma discreta crise, como indicam rumores divulgados nas mídias sociais.

A Mix FM e Sul América Paradiso, duas franquias financiadas por Luciano Huck, em parceria com Luiz Calainho e Alexandre Accioly, começam a sofrer uma crise, já que não conseguem repercutir de maneira desejada, apesar da onipresença publicitária que envolve sobretudo a Mix.

Já a Rede Transamérica, por sua vez, há muito tempo não consegue ter um índice expressivo de audiência, em todo o país, e hoje não passa de uma sombra do que a rádio foi nos anos 80. Aparentemente, a rádio parece remanescente das antigas FMs oitentistas mas hoje, parcialmente entregue ao "Aemão" esportivo, a rádio decaiu completamente.

Hoje a Transamérica não é mais do que uma rádio de aluguel, arrendada por DJs e por dirigentes esportivos. E, apesar do cartaz que ela mantém nas colunas e fóruns de rádio e de seus (pouquíssimos) ouvintes sintonizarem a emissora em volumes altíssimos, a audiência e a reputação são baixíssimas.

Portanto, essas notícias comprovam que a Rádio Cidade não faz parte da ciranda mercadológica do radialismo rock - a gente até pergunta se o nome "rock" não é elipse para "Rock In Rio" - , mas da ciranda das rádios pop convencionais. Rádio Cidade, o teu passado não nega.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O rádio reduzido a um interminável blá blá blá

Escrevo este texto diante da notícia do fim do rádio musical no outrora pródigo em boas rádios musicais Sistema Globo de Rádio (Mundial AM 860, Eldorado AM 1180, Globo FM 92,5, Eldo Pop FM 98,1). A Beat 98 FM 98,1 (que no passado foi a saudosa Eldo Pop FM e depois 98 FM) está prevista para sair do ar no próximo dia 17, para se tornar uma repetidora da Rádio Globo AM 1220, que está deixando de arrendar a FM 89,5 (ex-Manchete FM, ex-Manchete Gospel, ex-Nova Brasil FM e ex-Nossa Rádio FM). A Beat 98 e todo o sistema de rádio musical do Sistema Globo estão sendo transferidos para o portal Rádio Beat, que não traz nada de novo em relação a portais e serviços de rádio online melhores que há por aí.

Por algum tempo, entre os anos 70 e 90, nós tínhamos uma segmentação no rádio. Havia rádios de vários segmentos. E havia também uma segmentação entre os dials. Rádio falado no AM, com comunicação, serviço comunitário, jornalismo e coberturas esportivas. Rádio musical no FM, com segmentação musical, jornalismo sucinto e eventualmente entrevistas com os artistas executados nas emissoras. Havia excelentes emissoras, tanto no AM como no FM.

Havia também algumas FMs que, longe de representarem alguma segmentação autêntica no dial FM, foram criadas apenas para imitar outras (imitar mal e porcamente a Rádio Cidade FM 102,9 era de praxe), para promover uma programação alienante e para gerar faturamento à custa de pagar mal a poucos funcionários e receber toneladas de jabá de gravadoras, de produtoras e de artistas.

Paralelamente, por muito tempo profissionais da comunicação combatiam a segmentação radiofônica, e mesmo a existência de dois estilos de rádio distintos: o AM e o FM. Já na Rede Globo, Faustão (egresso do radiojornalismo esportivo da Jovem Pan AM) criticava a segmentação de estilos entre o AM e o FM. Heródoto Barbeiro fazia o mesmo na CBN, brigando para que a então CBN AM 780 de São Paulo transformasse a então X FM 90,5 (então em processo de encerramento de atividades) em mera repetidora da CBN. Isso já nos anos 90. Na década seguinte, a CBN AM 860 do Rio repetiu a mesma atitude, transformando a Globo FM 92,5 em sua repetidora. Nenhuma palavra dos tecnocratas do rádio a respeito dos profissionais demitidos da X FM e da Globo FM. O mesmo processo foi feito também por outros grandes grupos radiofônicos pelo país afora. Rádios AM como Bandeirantes, Itatiaia, Gaúcha, Tupi e Globo também passaram a ter repetidoras no FM. Resultado: menos postos de trabalho no FM. Ao mesmo tempo, tivemos várias FMs não repetidoras de AM vilipendiando o formato do rádio AM, praticando apartheid tecnológico contra as AMs de verdade. E tome FM transmitindo futebol, corrida de Fórmula 1 e colocando no ar comunicadores tendenciosos para falar pelos cotovelos. Algumas FMs ainda mantiveram um ou outro programa musical entre um programa falado e outro, geralmente transmitindo músicas pop, popularescas ou religiosas. Outras FMs baniram os programas musicais, abraçando de vez o modelo de rádio AM. As poucas FMs musicais que sobraram (noves fora algumas estatais, universitárias e outras raras exceções) se dessegmentaram, se restringindo a poucos gêneros: pop, popularesco, gagá contemporâneo e música religiosa. Não se confirmou a falácia dos tecnocratas radiofônicos segundo a qual o rádio falado acabaria com a má qualidade da programação musical em algumas FMs. Pelo contrário: as boas FMs musicais é que foram ejetadas do dial.

Resumindo: o vilipêndio do formato AM pelas FMs foi o estopim do fim da segmentação entre AM e FM, da asfixia econômica das AMs, do fim da segmentação musical do FM, do fechamento de postos de trabalho no rádio e do interminável blá blá blá das atuais FMs, com seus âncoras, comunicadores e comentaristas tendenciosos.

Cedendo aos tecnocratas do rádio, o Governo Federal sepultará de vez o dial AM, ao promover a transferência de todas as AMs para o FM. Isso se os caras dos órgãos públicos que atuam no Sumaré deixarem! Se até meados dos anos 90 nós tínhamos excelentes rádios AM, excelentes rádios FM e alguns maus exemplos de FMs alienantes, agora ficaremos com uma única régua de rádios, somando dial FM com dial FM estendido. Uma régua cheia de AMs tendenciosas com um interminável blá blá blá. Até mesmo as rádios pop, popularescas, gagás contemporâneas e de música religiosa deverão ser ejetadas do dial, como aconteceu com uma série de FMs do dial carioca e como acontecerá agora com a Beat 98.

Como daqui a algum tempo o povo se mudará para as rádios que transmitem para Internet, dispositivos conectados (como smartfones) e serviços pagos (como os de TV paga), a ruína do dial FM será mais rápida que a ruína do dial AM. Quando inventarem o rádio transmitido via wi-fi para chips neurais, até essas rádios que transmitem pela Internet, por serviços pagos ou para dispositivos conectados deverão sucumbir.