sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Livro acaba expondo contradições da "rádio rock" 89 FM


A rádio 89 FM, emissora paulista cujo formato influencia a Rádio Cidade, aqui no Rio de Janeiro, lançou um livro sobre sua história que, embora mostrasse uma abordagem positiva da emissora, acaba mostrando suas contradições, mesmo sem querer.

Escrito pelo jornalista Ricardo Alexandre - do livro Dias de Luta, sobre Rock Brasil -  , o livro no entanto reflete o ponto de vista dos departamentos comercial e de marketing da emissora, acrescido de depoimentos de ouvintes, profissionais e famosos.

O que se observa no livro são duas grandes contradições da trajetória da rádio. Uma rádio que tem uma relação muito mal resolvida com as regras do mercado, que tenta ser ao mesmo tempo submissa e insubordinada, caindo em muitas posturas equivocadas.

Essa postura se centraliza sobretudo na postura "roqueira" da emissora, pois a grande e aberrante contradição está nessa postura ao mesmo tempo "bastante firme" e "não radical". Por sorte os mercados radiofônico e publicitário não são especializados em cultura rock, daí que essa contradição se passou durante muitos anos.

Em várias passagens do livro, são apresentadas várias contradições da 89 FM. Uma rádio que criou um projeto "antirrádio", contra a fórmula dos locutores animadinhos, depois lançava a fórmula dos locutores que "falavam sorrindo", ou seja, adotando a mesma fórmula dos "locutores animadinhos" que havia rejeitado antes.

Em toda sua trajetória, a 89 FM se baseava numa postura "radicalmente rock", mas em vários momentos contradizia essa postura, dizendo-se querer romper com os paradigmas de "roqueiros radicais". Queria "tirar o jaquetão", mas não admitia ser dissociada do estima de "rock", daí a costumeira e famosa irritabilidade de produtores e adeptos da 89.

JOSÉ CAMARGO (D) APRESENTA OS DOIS FILHOS, JÚNIOR (E) E NENETO (CENTRO) AO MINISTRO DA DITADURA MILITAR, CÉSAR CALS (DE TERNO CINZA).

Outra contradição, menos conhecida, mais sutil e no entanto gravíssima é quanto aos bastidores da rádio. Tida como "progressista", "revolucionária" e "alternativa", a 89 FM tem um quadro empresarial sombrio demais para uma rádio que queira ser "Hoje e Sempre, A Rádio Rock".

A emissora é integrante do Grupo Camargo de Comunicação, do empresário e antigo político da ditadura militar José Camargo. Ele foi afilhado político de Paulo Maluf e iniciou sua carreira na ARENA (Aliança Renovadora Nacional), tendo sido amigo do atual presidente da CBF, José Maria Marin.

Para quem não sabe, Marin é conhecido por ter feito, como deputado estadual por SP, um violento discurso na ALESP reclamando contra o boicote da TV Cultura à notícia de uma inauguração de um sistema de esgoto pelo Governo de São Paulo, em 1975.

Nessa época, o governador paulista era o antigo líder estudantil udenista e hoje tucano Paulo Egydio Martins, ex-presidente da UNE numa rara fase reacionária da entidade. O não noticiamento da inauguração irritou os parlamentares e Marin foi um dos oradores mais agressivos.

Pedindo punição ao Departamento de Jornalismo da TV Cultura, Marin pediu a prisão de seu diretor, o jornalista Vladimir Herzog, que, uma vez detido, foi assassinado e sua morte deu início a uma grave crise institucional da ditadura militar, que daria em seu fim dez anos depois.

Consta-se que a implantação de programas sobre futebol e besteirol da 89 FM foram feitos através da aliança dos dirigentes esportivos comandados por Ricardo Teixeira e José Maria Marin e a família do empresário José Camargo, que controla a 89 FM.

Dessa forma, programas como o antigo "Rock Bola" e o atual "Quem Não Faz Leva" da CBF atrair o apoio dos "roqueirinhos" ouvintes da rádio para o fanatismo futebolístico que enriquecem as fortunas sujas dos "cartolas".

PROJETO "ANTIRRÁDIO" FOI COPIADO DE RÁDIOS DO RJ

O que pouca gente admite é que o projeto "antirrádio" da 89 FM, única fase em que a rádio esteve próximo de assumir um formato decente, relativamente criativo mas superestimado pela imprensa paulista (e pelo livro de Ricardo Alexandre) era copiado em parte do modelo da Rádio Fluminense FM, de Niterói.

Apenas uma diferença era notável: a 89 FM já copiava alguns aspectos da cultura rock contemporânea do perfil de outra rádio do Grande Rio, a Estácio FM, lançada em 1984 como segunda rádio de rock do RJ.

A 89 copiava 75% do perfil da "Maldita" de 1982-1985 mas seu cardápio musical já enfatizava a linha do rock mais atual da Estácio. Tanto que, depois, a 89 FM fazia a transmissão paulistana do programa Novas Tendências, quando seu apresentador e ex-coordenador da Estádio, José Roberto Mahr, já estava na Fluminense.

Por um brevíssimo período, entre dezembro de 1985 e meados de 1988, a 89 FM esteve próximo de ser uma "rádio alternativa", causando boa repercussão na mídia paulistana. Todavia, essa fase durou menos até do que a fase áurea da Fluminense FM, que durou exatos três anos (a da 89 nem chegou a dois anos e meio).


89 VIVE DE SAUDOSISMO

Outra contradição é que a 89 FM, que aparentemente se mira para o futuro, sempre se alimentou de glórias passadas. Na prática, a tão elogiada "rádio rock" morreu em 1988, e desde então o que se vê é uma morta-viva que só fez sucesso por conta de uma habilidosa estratégia de marketing.

Já nos anos 90 e começo deste século a 89 FM vivia de façanhas passadas, embora sempre se alimentasse dessa imagem "pioneira" para se manter presente, mesmo com seus piores erros no radialismo rock. Reduzida a uma "Jovem Pan 2 com guitarras", a 89 usava o passado de 1985-1988 para continuar explorando o mercado roqueiro.

A sorte é que a Internet começaria no meio dessa fase e durante anos a 89 era protegida da imprensa paulista. Os tempos eram outros, de uma opinião pública praticamente privatizada, restrita aos interesses de editores de jornais e executivos de rádio e TV.

Com os protestos contra a 89 e sua congênere Rádio Cidade, há cerca de dez anos - que causaram reações violentas dos adeptos das duas emissoras - , as emissoras largaram o rock em 2006 e só voltaram devido ao interesse dos organizadores da Copa de 2014 para inserir as duas "rádios rock" no mercado turístico brasileiro.

E aí há um outro saudosismo. A 89 e a Cidade agora vivem glórias passadas quanto ao tempo em que seus formatos já não eram grande coisa, mas tinham a proteção da grande mídia. Só que hoje os tempos são outros e as transformações da cultura rock no Brasil e no mundo já indicam que as duas rádios estão velhas e ultrapassadas.

As duas rádios hoje se alimentam de uma audiência não-roqueira que quer ouvir um Offspring e um Charlie Brown Jr. depois de um Luan Santana, Raça Negra ou Anitta. Quase toda sua audiência é de ouvintes não-roqueiros que aceitam um "rock mais acessível".

Os tempos são outros, e a 89 FM tenta agora achar aquele jaquetão que havia largado e perdeu para hoje e sempre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário