quarta-feira, 2 de julho de 2014

Rádio Cidade e 89 FM não apostam em renovação no rock brasileiro

LOS HERMANOS VIROU A BANDA DA MODA A SER COPIADA PELAS BANDAS DIVULGADAS PELAS DUAS "RÁDIOS ROCK".

O tipo de radialismo rock adotado, de maneira caricatural, pelas emissoras Rádio Cidade (RJ) e 89 FM (SP) não tem o menor compromisso com a cultura rock de qualidade, seja pela mentalidade estritamente comercial que estabelece sérias restrições ao gênero, seja pela falta de personalidade das duas rádios, no fundo meras FMs pop dotadas de um vitrolão tido como "roqueiro".

Até agora, as duas rádios não divulgaram sequer qualquer cenário de renovação do rock brasileiro. E podemos fazer uma comparação com a Fluminense FM de 1982 e a 89 FM de dezembro de 2012 para cá, para verificarmos a gravidade dessa situação.

Quem acompanhou a história da Fluminense sabe que a emissora surgiu em março de 1982 e que, em seis meses, já divulgava uma boa leva de bandas de qualidade que representaram novidade e renovação no cenário musical. O Rock Voador já era um projeto adotado por volta de outubro, já com pelo menos uns seis artistas conhecidos através da programação da rádio niteroiense.

Detalhe. Não havia Internet, o trânsito de informações era mais lento, a Fluminense era considerada pouco experiente - seus experimentos em programação rock só foram para valer em 1982, apesar da fase experimental em 1981 - e, mesmo assim, a emissora acertou de primeira, já que as bandas da época, como Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho, são prestigiadas até hoje.

Já em 1983, bandas como Legião Urbana e Capital Inicial começavam a ser amplamente divulgadas pela rádio niteroiense, que chegava em 1985 e 1986 dando mais espaço ao rock paulistano do que a 89 FM de São Paulo, surgida em 1985 como uma versão "comportada", despolitizada e muito menos ousada da Fluminense FM, e que era corretinha antes de assumir de vez o QI pop de 1989 (!) até hoje.

Já a 89 FM, ressuscitada pelo lobby publicitário em dezembro de 2012, até agora não foi capaz de lançar uma cena musical de primeira, não teve faro suficiente para lançar bandas com diferencial. Até agora, além da continuidade do rock comercial e abobalhado dos anos 1990-2000, a rádio só divulga, e mesmo assim com alguma timidez, uma mera leva de imitadores.

A Rádio Cidade segue o mesmo caminho, e agora que ela será coordenada por um ex-locutor da Beat 98 - que entende tanto de rock quanto o humorista e político Tiririca entende de tecnologias de exploração espacial - , não se espere que um novo Renato Russo mostre suas primeiras composições sob as ondas da rádio.

Depois dos imitadores de Raimundos e Charlie Brown Jr. e das bandas "emo" menos andróginas e másculas tipo CPM 22 - anterior ao "emo às últimas consequências" de Restart, Cine e companhia - , a moda agora é imitar Los Hermanos, deturpando o bom e criativo rock com tons de MPB do grupo de Marcelo Camelo a um roquinho preguiçoso e mulambento.

Criou-se até a fórmula para os imitadores de Los Hermanos: bandas com vocalista barbudo, com olhar de cansado, vocal preguiçoso e letras que banalizam a melancolia e os problemas existenciais para uma pseudo-poesia oca e tragicômica. Letras e vocais que parecem ter sido feitos por alguém que acabou de se levantar da cama, depois de uma pesada noite de sono.

Paralelamente a isso, há bandas de rock skatista ditas de "hardcore" - há a grafia pejorativa do "rardicór" para questionar esse rótulo - cujas letras de "contestação social" são tão vagas que o ouvinte não tem a menor ideia do que elas realmente contestam.

Aí veio também outra moda, a de escrever letras dizendo para as pessoas tomarem cuidado, ou para elas agirem, mas não há um questionamento substancial, não se sabe para quê se deve agir ou que problema nos está à frente. Qual é o sentido do "sentido" que fala a letra, que poderes teremos que questionar, nada disso é questionado. E a revolta se limita a poses e clichês.

É lamentável que, para o rock voltar ao mercado, tenhamos que depender de duas rádios comerciais sem a menor intimidade nem vocação para o rock. E que mostraram que no fundo elas veem a cultura rock como uma piada, tratando o gênero de forma preconceituosa, caricata e estereotipada bem ao gosto de rádios pop convencionais, que no fundo a 89 e a Cidade se limitam a ser.

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