domingo, 8 de junho de 2014

Segmentação do rádio brasileiro dando vexame diante dos turistas

Os turistas estrangeiros estão chegando. Desta vez, não para a virada de ano ou para o Carnaval. Agora os turistas que chegam são aqueles interessados no futebol mundial, quase todos interessados na Copa do Mundo, a ser realizada nos próximos dias neste país.

Até mesmo esses turistas futeboleiros não devem vir aqui unicamente para assistir as partidas da Copa. Não haverá partidas nas 24 horas do dia. E nem esses turistas virão aqui pra ficar vendo VT de partidas da Copa. Eles também buscarão atrações turísticas e locais de diversão não relacionados ao futebol. Opções não faltarão nas cidades turísticas que visitarem.

Complicado mesmo será esses torcedores ouvirem boa música no mal e porcamente segmentado rádio brasileiro. Tirando o dial paulistano, não há uma segmentação autêntica no rádio brasileiro. Não me venham dizer que é segmentado um rádio comercial restrito a emissoras populares (musicais ou de comunicadores), ouníus, religiosas, pop e rádios gagás contemporâneas. Não há mais rádios de samba (eu disse SAMBA de verdade, não essas porcarias populistas de cabresto que tem por aí), não há rádios de jazz, não há rádios de blues, não há rádios de world music e as poucas rádios de música clássica que restam são estatais, restritas a poucas capitais, basicamente a MEC FM no Rio de Janeiro, a Cultura FM em São Paulo e a MEC AM em Brasília. Aliás, as rádios estatais dão um banho de competência pra cima das rádios comerciais. São boas de ouvir. Mas mesmo as rádios estatais, tirando as clássicas, não são segmentadas. São raras as rádios de música regional, como a Rádio Rural de Porto Alegre. O radialismo rock, então, está em estágio terminal. Dedicada 100% ao gênero, só a paulistana Kiss FM, que mesmo assim se dedica basicamente a músicas e bandas antigas e tem repetidoras em outras cidades que saem do ar constantemente por vários motivos. Rádio que mescle decentemente bandas novas com antigas? Isso não existe mais. O que tem por aí são rádios pop que, em matéria de radialismo rock, são uma fraude.

Até os turistas que estiverem interessados em ouvir MPB (jazz, blues, rock e world music eles podem ouvir em casa) terão dificuldade para encontrar emissoras do gênero. Restam poucas rádios de MPB, como a carioca MPB FM e a rede Nova Brasil FM em outras cidades. Turista que quiser ouvir MPB no Brasil que não seja ao vivo terá que recorrer a CDs, a DVDs, a blu-rays, ao MP3 e à Internet. Mas isso eles podem fazer em casa!

O rádio brasileiro marca gols contra um atrás do outro.

Texto publicado hoje no Tributo ao Rádio do Rio de Janeiro.

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terça-feira, 3 de junho de 2014

Defensores da Rádio Cidade se perdem em nervosismo e contradições


Vendo no Facebook, a reação nervosa dos defensores da fase "roqueira" da Rádio Cidade, retomada há alguns meses, preocupa. Afinal, a emissora, a exemplo da 89 FM em São Paulo, foi marcada pelo fanatismo de seus defensores abertamente reacionários e irritadiços, a ponto das duas rádios serem as primeiras a mostrarem casos de trolagem na Internet.

As duas emissoras deturparam a cultura rock num perfil caricato, estereotipado que agora tornou-se "institucionalizado". Seus defensores agora falam até em "duas culturas rock", como se houvessem dois rocks, um é o "velho, antiquado e intransigente" hoje simbolizado pela Kiss FM, outro "moderno e contemporâneo" adotado pela 89 e Cidade.

Só que essa desculpa só existe no Brasil e, apesar do pretexto de "modernidade", a 89 e a Cidade demonstram uma clara noção de provincianismo, sobretudo por defensores fanáticos que julgam a cultura rock de acordo com seus umbigos.

Sem conseguirem argumentar de forma consistente, os defensores das duas rádios reagem com fúria e com ataques na Internet. Isso porque se acham "superiores" no seu julgamento que tem muito mais a ver com aquele "radialismo de escritório" que lida com números mortos, gráficos e estratégias comerciais, mas não com a realidade do Brasil e do mundo à volta.

Pelo contrário, o que se observa é que os fanáticos reacionários da 89 e Cidade esnobam o mundo, ficam presos no tempo e no espaço e querem que o mundo se submeta ao que só eles pensam e acreditam. Eles não têm paciência em admitir que o mundo hoje não tem a ver com o quartinho infantilizado do "roqueirinho" da 89 e Cidade, o planeta não tem o tamanho de seu umbigo.

Noto que os ataques, a irritação desses fanáticos pseudo-roqueiros se devem por uma série de contradições que seus argumentos desesperados e, muitas vezes, sem muita coerência, surgem e que eles são incapazes de resolver, sobretudo em relação apenas à Rádio Cidade.

A Rádio Cidade se consagrou como emissora pop, e seu pretensiosismo "roqueiro" bastante surreal, contrário à sua história, é atropelado por uma série de fatores que seus adeptos fanáticos não podem esclarecer. E por isso as xingações, a irritação, o medo do "fantasma de 2006" rondar a emissora.

Eu observo a realidade - é incrível como raciocinar virou tabu nas mídias sociais - e já vi muitas pessoas que ouviam rádios como Mix FM, Beat 98, Nativa FM e Transamérica sintonizarem a Cidade. Um público entre o brega e o pop dançante. Paciência e isso vai contra a ilusão publicitária de que a rádio é ouvida por "roqueirões da pesada" munidos de skates e motocicletas.

Para piorar, os argumentos confusos dos "roqueiros" da Cidade apelam, por um lado, para o fato da rádio "não ser mais pop" e, de outro, pelo fato de que a rádio "não ter compromisso para tocar certas tendências do rock". Caem em violenta contradição e transformam a Cidade numa rádio que segue o ditado "não f*** nem sai de cima". Algo como um Ford 1929 correndo na Fórmula Indy.

A Rádio Cidade nem tem estado de espírito roqueiro. Não tem mentalidade nem know how de rock. Sua programação é montada pelas gravadoras, sua linguagem é rigorosamente igual ao de qualquer rádio poperó que a Cidade evita qualquer comparação. Mas os anunciantes sabem muito bem dessa semelhança. Cidade e Mix FM parecem gêmeas siamesas.

Tudo é justificado pelos interesses comerciais, como se isso fosse suficiente. Mas é justamente isso que os executivos de televisão fazem para defender as baixarias televisivas. E aí pinta o nervosismo desses fanáticos ao saber que o mundo não é como os departamentos comerciais das rádios acreditam existir.

Eles falam que a Cidade "mudou", mas é essa "mudança" que soa muito mais conservadora, porque é aquele princípio de "mudar para permanecer a mesma coisa". Se a Cidade continuasse pop, talvez acompanhasse melhor as mudanças ocorridas no tempo com o pop. Talvez perdesse o preconceito contra o pop vendo que ele não é só Backstreet Boys e Britney Spears.

Pelo contrário, se há muito engodo no pop, começam a surgir coisas interessantes: Lorde, Ellie Goulding, Daft Punk, Bruno Mars, Ed Sheeran, e até mesmo o "popão" Robin Thicke soa divertido dentro de suas perspectivas. Gente que parece bem mais instigante que certos "engraçadinhos" do rock noventista que a Cidade (e a 89 FM) tocam pela enésima vez como se fosse "novidade".

Fico muito preocupado com o reacionarismo habitual dos fanáticos da Rádio Cidade. Gente que não quer saber de coerência. No fundo, são pessoas que sempre odiaram a Rádio Cidade e queriam uma rádio só para eles. São pessoas que odeiam rock, odeiam pop, odeiam tudo, e só querem uma rádio para estimular suas catarses emocionais. Nada que seja sério.

Por isso a rebeldia sem causa que se transforma em reacionarismo preocupante - desses que fazem o reacionarismo de Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo parecerem suaves - dos ouvintes da Cidade causam muita apreensão.

Narcisistas, intolerantes e irritadiços, eles desprezam o mundo, a mudança dos tempos, as transformações sociais. Hoje a Cidade (e a 89) é considerada antiquada até para os níveis de rádio de rock contemporâneo. Lá não existe questões de rock novinho versus rock antigo, já que muito do rock dos anos 90 e 2000 é claramente inspirado no rock dos anos 60 e 70.

A irritabilidade desses defensores das duas rádios (Cidade e 89) pode se voltar até contra as duas rádios, como ocorreu em 2006, quando as duas deixaram o rock com a repercussão intolerante e furiosa de seus adeptos, que fizeram queimar o mercado de radialismo rock durante muito tempo.

Daí que os fanáticos da Cidade e da 89 deveriam se preocupar com eles mesmos. Afinal, é sua irritabilidade e suas xingações contra quem não pensa igual a eles, bem mais do que qualquer crítica que as duas rádios recebam na Internet, que irá queimá-las mais uma vez. E da próxima vez poderá não haver volta.