segunda-feira, 31 de março de 2014

"Rede da Democracia": Rádios Globo, Tupi e JB defenderam o golpe militar

O ENTÃO GOVERNADOR DA GUANABARA, JORNALISTA CARLOS LACERDA, EMPRESTAVA SEU DISCURSO INFLAMADO A OUTROS VEÍCULOS DA MÍDIA.

Quem tivesse a capacidade de recordar os acontecimentos de 1963-1964, verá que muita gente defendia o golpe militar que, em 01 de abril de 1964 - mas oficialmente creditada a um dia antes - , tirou do poder o presidente João Goulart.

A lista era coisa de arrepiar. Nomes como Carlos Heitor Cony, Alberto Dines, Rachel de Queiroz, Augusto Frederico Schmidt, Fernando Sabino, Rubem Fonseca, César de Alencar, Hebe Camargo, Carlos Drummond de Andrade estavam envolvidos em campanhas para tirar João Goulart da presidência da República.

Isso para não dizer os então "anônimos" Fernando Collor, Mário Kertèsz e Jaime Lerner, golpistas de arquibancada. Eles hoje passam a falsa imagem de "progressistas", sob o consentimento do PT, mas eram jovens que queriam o "fora Jango", se empolgando em ver algum general no Palácio do Planalto. Os pais de Collor, Arnon de Mello e Leda Collor, militavam no IPES-IBAD.

A defesa do golpe militar, naqueles tempos, era vista por muitos como uma necessidade, e por outros como uma utopia na qual o governo, então imaginado provisório, das Forças Armadas, iria combater a corrupção que supostamente se atribuía aos bastidores do governo Jango.

Na verdade, isso era uma desculpa para combater um presidente cujos projetos de governo estabeleciam sérios limites para o grande empresariado e para os grandes proprietários de terras, além de fazer com que o Brasil estabeleça uma autonomia político-econômica em relação à supremacia dos EUA, naqueles tempos de Guerra Fria entre a nação norte-americana e a antiga URSS.

Uma das campanhas feitas em oposição a Jango foi a Rede da Democracia. Articulada em 1963 pelos empresários Roberto Marinho, Assis Chateaubriand e Nascimento Brito, respectivamente das Organizações Globo, Diários Associados e Sistema Jornal do Brasil, ela também era apoiada pelos jornais O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, Rádio Bandeirantes e outros veículos midiáticos.

No Rio de Janeiro, destacava-se as campanhas feitas pela Rádio Globo, Super Rádio Tupi e Rádio Jornal do Brasil, entre outras, para desqualificar Jango e adotar a solução do golpe militar para "resolver a bagunça". A mesma histeria reacionária observada em Veja e que, nos anos 60, já tinha o verniz "racional" difundida nos "institutos" IPES-IBAD, era o tom de todo seu conteúdo.

Havia entrevistas, discursos, propagandas, seja no rádio, na TV, nos jornais, nas revistas. A Rede da Democracia era a resposta à antiga Rede da Legalidade que o então governador gaúcho Leonel Brizola havia articulado em 1961 para pedir a posse de João Goulart garantida pela Constituição da época, a de 1946.

Da TV Tupi ao jornal O Globo, havia toda uma pregação moralista e golpista. E um dos convidados especiais para a festa direitista era o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, que era um dos que mais queriam ver Jango destituído do poder.

As rádios conseguiram repercutir a campanha, já reforçada em março de 1964 pelas diversas "marchas da família" movidas a partir de São Paulo, e que convenceram a sociedade da época a defender o golpe militar. A grande mídia e seus chefões ajudaram muito na derrubada de um governo popular e na construção de uma ditadura que arruinou o Brasil.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Transamérica voltou. Kiss FM está voltando aos poucos

Fora o problema da interferência na comunicação aérea, na terça-feira passada as rádios Kiss FM 91,9 e Transamérica FM 101,3 enfrentaram também problemas com a tensão elétrica fornecida pela companhia distribuidora de energia que atende à cidade do Rio de Janeiro. O resultado: diversos equipamentos do quadro elétrico das duas rádios no Sumaré foram danificados. A Transamérica já consertou seus equipamentos, e voltou ao ar em poucos dias, após a companhia de energia autorizar o religamento. Já a Kiss FM voltou ao ar hoje, mas não na potência total. Nem todos os equipamentos da parte elétrica foram completamente consertados, de modo que a rádio não pode ainda retornar com a potência máxima autorizada, sob pena de ter novamente equipamentos danificados. A expectativa é de que a Kiss FM volte ao ar com potência máxima nos próximos dias.

Rádio Cidade sofre da Síndrome de Michael Jackson


A Rádio Cidade 102,9 mhz está um tanto confusa. Querendo rever parcialmente sua história - ironicamente num programa chamado Cidade do Rock - , a emissora do Rio de Janeiro insiste num perfil "roqueiro" caricato, estereotipado e forçado, que não soa convincente nem supre as necessidades básicas da cultura rock, mesmo para iniciantes.

A Rádio Cidade força a barra porque, mesmo sendo uma rádio que fez história transformando a linguagem do rádio FM, sofreu da frustração de não ter o carisma da Rádio Fluminense FM entre os roqueiros.

A Cidade já tentou por quatro vezes se projetar como "rádio de rock": uma, de forma tímida, entre 1985 e 1989, na carona do Rock In Rio e como laboratório para a 89 FM de São Paulo. Depois veio a experiência de 1995 a 2000, mais pretensiosa mas menos escancarada. Aí veio a rede da 89 FM entre 2000 e 2006. Já a quarta tentativa é a atual, desde o último dia 10.

A Rádio Cidade sofre da síndrome de Michael Jackson. O falecido astro pop surgiu como um simpático cantor soul, que impressionava quando era criança, à frente dos irmãos músicos do grupo Jackson Five. Depois iniciou uma carreira solo de bons momentos, dentro da boa escola soul e embarcou com segurança na disco music e no funk autêntico, sob a ajuda de Quincy Jones.

Tudo estava bem até que, no disco de maior sucesso, Thriller, de 1982, um dos sucessos de Michael foi "Beat It", tocada em arranjo "pesado" com a participação de Eddie Van Halen na guitarra. Foi aí que Michael iniciou seu caminho perigoso, que em parte influiu na sua tragédia.

O cantor passou a sentir uma obsessão em ser "branco" e "roqueiro". Nos discos seguintes sempre colocava uma faixa com guitarrista. Bad, de 1987, "Dirty Diana", teve Steve Stevens, parceiro de Billy Idol. Em Dangerous, de 1991, "Give It To Me" teve a participação de Slash, do Guns N'Roses.

É de Dangerous também a música de trabalho, "Black or White", um "roquinho" cujo videoclipe mostrava Macaulay Culkin fazendo o papel estereotipado da criancinha rebelde cheia de clichês roqueiros, como ouvir som alto e fazer "air guitar" (gestos manuais simulando solo de guitarra).

Michael teve tanta obsessão em ser "roqueiro" que chegou a comprar os direitos autorais do repertório dos Beatles, se valendo da confiança de Paul McCartney, que duetou com ele na música "The Girl is Mine", de Thriller.

E isso influiu até no vocal, que passou a ser berrado, em vez da bela voz soul que marcou canções como "Rock With You", "Human Nature", "One Day in Your Life" e "Off The Wall", além do falsete da música "Don't Stop Til' You Get Enough".

Michael passou a ter uma desesperada mania de parecer "roqueiro" - uma forma de soar como "artista branco" que fez o cantor tomar remédios para clarear a pele - que se casou com a filha de Elvis Presley, Lisa Marie, e passou a imitar o então sogro vestindo um macacão semelhante ao que o falecido roqueiro usava nos últimos anos de carreira.

Temos depois, Michael passou a se vestir e a gesticular como Mick Jagger. Com o cantor dos Rolling Stones, Michael duetou na música "State of Shock" gravada com a banda dos irmãos, que havia sido rebatizada The Jacksons, no álbum Victory, de 1984.

A música, no entanto, teria dueto com Freddie Mercury, o finado cantor do Queen, para o álbum Thriller, mas problemas de agenda impediram o lançamento deste dueto. Composto com o guitarrista Randy Hansen, Michael havia bolado um arranjo "roqueiro" para a canção.

Mesmo em músicas não roqueiras, como em "They Don't Care About Us" e "Scream", esta em dueto com a irmã Janet Jackson, Michael tinha obsessão pela "atitude", o que fez com que ele se preocupasse com factoides e com uma personalidade esquisita, um tanto infantiloide, outro tanto pretensamente rebelde.

Curiosamente, Michael Jackson foi um dos nomes da música pop mais tocados pela Rádio Cidade, que já em 1979 dava alta rotação a músicas como "Don't Stop Til' You Get Enough", "Rock With You" e "Off The Wall". A rádio também deu todo o acompanhamento do sucesso de Thriller e mesmo na tímida fase "roqueira" de 1985-1988 não deixava de tocar as faixas do álbum Bad.

A obsessão "roqueira" matou Michael Jackson. Nem todo mundo tem vocação para ser roqueiro. Perseguir a rebeldia como um fim em si mesmo, bancar o "malvado", o "radical", não traz muita vantagem e o que se vê, na Rádio Cidade, é a mesma paranoia da falsa rebeldia adotada por Michael Jackson e uma obsessão forçada pela atitude roqueira.

Mesclando linguagem pop, a Rádio Cidade virou mera rádio de locutores e promoções. Tem departamento comercial enxuto, aumentou seu sinal de transmissão etc etc etc. Com fraca programação musical, a rádio não convence sequer quando tenta tocar bandas "alternativas", até porque, ironicamente, elas seriam muito melhor tratadas por uma OI FM.

Com rádios realmente roqueiras botando para ferver frequências afora - como a Kiss FM e Fluminense AM - , a Rádio Cidade ainda fica colada, no dial, com a emissora pop Mix FM e, ao lado desta, tem a similar Transamérica FM. As duas nem de longe acreditam que se livraram da concorrência da Rádio Cidade, até porque, em matéria de QI, a Rádio Cidade está MAIS POP do que nunca.

Nenhum alternativo e nenhum roqueiro exigente irá ouvir a Rádio Cidade. Também não cairão mais nesse papo cansativo que mais parece disco riscado que diz "pelo menos a Cidade é muito melhor que muita rádio aí...", porque esse papo de se contentar com pouco cansa com a paciência de qualquer um. Da mesma forma que os roqueiros não querem ficar ouvindo somente os "sucessos da Cidade".

quinta-feira, 27 de março de 2014

Transamérica e Kiss FM saíram do ar para manutenção

Na última terça-feira, as rádios Transamérica FM 101,3 e Kiss FM 91,9 saíram do ar por alguns dias. A Transamérica já voltou. A Kiss, não. Nosso amigo Ernesto Pina descobriu a causa e escreveu no Grupo do Tributo ao Rádio do Rio de Janeiro no Facebook:

Caso Transamérica e Kiss FM: o que ocorre é que a ANATEL observou e notificou as duas emissoras com problemas nas suas portadoras (terceira e quarta harmônica) que estavam invadindo espectro de aviação, e por isso pediu que solucionasse o quanto antes o problema. Quem me passou a info foi um engenheiro da ANATEL na área de Rádios. A Kiss FM 91,9 está aproveitando essa "manutenção" para sondar as rádios ilegais e seus respectivos endereços. Segundo informação da emissora em SP, para poder passa-las a ANATEL e tomar as medidas cabíveis.

A Kiss FM, além de estar fazendo manutenção das portadoras, está investigando essas rádios piratas que estão transmitindo nos 91,9 MHz ou em frequências vizinhas, atrapalhando os ouvintes que querem curtir a programação de classic rock da Kiss.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Em 25 anos, roqueiros se afastaram das rádios comerciais "de rock"

AGORA É A VEZ DOS FÃS DE FOO FIGHTERS E PEARL JAM SE AFASTAREM DAS DITAS "RÁDIOS ROCK" MAIS COMERCIAIS.

A realidade é um tabu para colunistas de rádio e pode ser considerada absurda para muitos internautas. Mas a verdade é que, nos últimos 25 anos, as rádios comerciais que usam o rótulo de "rádios rock", com todo o pretensiosismo de serem "para sempre roqueiras", só conseguiram afastar o público roqueiro ao longo dos anos.

Os retornos da 89 FM, em São Paulo, e da Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, apesar do aparente sucesso, apontam para essa tendência. Seus ouvintes estão muito mais interessados em ouvir piadas, game shows e coisas que eles estavam acostumados a ouvir, tipo Charlie Brown Jr., Guns N'Roses, CPM 22, Offspring e Mamonas Assassinas do que os verdadeiros nomes do rock.

A maioria dos comentários daqueles que comemoraram a volta das duas rádios se voltava mais para a irreverência de programas como "Sobrinhos do Ataíde", "Hora dos Perdidos" e "Pressão Total" do que por alguma volta do repertório roqueiro.

Em compensação, a cada dia internautas que defendem a 89 FM e a Rádio Cidade passaram a esculhambar os clássicos do rock, como Beatles, Who e Led Zeppelin, usando a desculpa de que "preferem rock novinho" que não cola sequer em músicos contemporâneos como Dave Grohl, Eddie Vedder, Noel Gallagher e James Hetfield, admiradores confessos do rock mais antigo.

ÊXODO ENVOLVEU DO ROCK DA BARATOS AFINS AOS BEATLES

Desde 1989, quando veio a onda de rádios comerciais rotuladas de "rock", quando várias emissoras pop embarcaram na onda e, sem fazer qualquer adaptação de perfil nem de linguagem, mudaram a planilha musical para o rock, limitando-se aos sucessos empurrados pela indústria fonográfica.

A suposta disposição dessas rádios em tocar bandas alternativas ou mais seminais ou viscerais de rock se dissolveu quando o espaço ao rock que não faz sucesso nas paradas era restrito a programas semanais de uma hora,  afastou muitos fãs de rock que já se sentiram constrangidos com a linguagem pop adotada pelos locutores e pelas vinhetas das emissoras.

Em 1994, a debandada envolveu muitos fãs de rock alternativo mais acessível, como Sonic Youth, Jesus and Mary Chain e Dinosaur Jr., o que fez a 89 FM - que tentou ser um arremedo de college radio entre 1993 e 1994, devido ao auge do modismo grunge - mudar a orientação, sem largar o rótulo "roqueiro", preferindo um "rock mais pop", entre um Offspring e um Guns N'Roses.

A 89 FM já havia sofrido, em 1988, o êxodo dos fãs de rock independente - Violeta de Outono, Fellini, Mercenárias e Voluntários da Pátria - depois que a emissora rompeu o acordo de divulgação das gravadoras independentes, como a Baratos Afins, só trabalhando com as grandes distribuidoras fonográficas.

Foi a grande debandada sentida nas rádios comerciais, depois que várias delas que irradiavam pelo resto do país - como a 96 FM, de Salvador, a Atalaia FM, de Aracaju e a primeira afiliada da 89 FM, em Recife - abandonaram o gênero, devido à baixa audiência.

Depois, ao longo dos anos 90, foi a vez das bandas mais antigas, como Deep Purple, Doors, Jethro Tull e Led Zeppelin estarem envolvidas no êxodo de ouvintes, juntamente com nomes oitentistas como Smiths, Siousxie and The Banshees e, pouco depois, Cult.

A debandada ainda se avançou quando fãs de Beatles, Rolling Stones e Who também pularam fora. Isso já no começo dos anos 2000. Isso enfureceu os produtores da 89 e Cidade, que passaram, na Internet, a esculhambar os clássicos do rock e a brigar com o público roqueiro, o que custou os mais de cinco anos de "suspensão" da programação "roqueira" das duas rádios.

Atualmente as duas rádios voltaram como meras alimentadoras de concertos internacionais de rock, mais pelo departamento comercial e pelas boas relações de seus donos com Roberto Medina e outros chefões da indústria de promoção de eventos internacionais do que por algum valor que elas tinham para a cultura rock que, sinceramente, é nenhum.

Apesar do aparente sucesso - se bem que abaixo do noticiado, num contexto em que rádios FM só conseguem ter, no máximo, 1/5 da audiência declarada no Ibope e outros institutos - , a 89 e a Cidade só estão sendo conhecidas mais pelos seus programas de humor, pelas promoções e pelos programas de jogos e perguntas.

Depois do alarde dado à reprise do programa "Invasão da Cidade", com a Legião Urbana, gravado em 1992, nada mais foi comentado de importante a respeito da volta da Rádio Cidade "roqueira". Em São Paulo, a 89 FM não consegue colocar o rock como principal referencial musical para a juventude, que continua mais voltada ao "funk ostentação" e ao "sertanejo universitário".

AGORA, O ÊXODO ATINGE OS FÃS DE NIRVANA, FOO FIGHTERS E PEARL JAM

E, agora, espera-se uma nova debandada. Além dos fãs de nomes como Iron Maiden, Metallica, Ramones, Clash e AC/DC saírem de fininho e romperem com as duas rádios, agora é a vez de fãs de bandas que eram carros-chefes das rádios comerciais "roqueiras" de 1989-1993, como Nirvana e Pearl Jam, caírem fora de vez.

Percebendo que o tempo comprovou a importância de grupos como Pearl Jam, Nirvana, Foo Fighters e Oasis, e pelo fato de que seus integrantes são admiradores de rock antigo e amigos de muitos veteranos - como a amizade de Dave Grohl com o ex-beatle Paul McCartney - , os fãs de rock dos anos 90 já começam a evitar as rádios comerciais "roqueiras".

Isso é tão certo que, certa vez, no Facebook, um engraçadinho lançou um "meme" - espécie de mensagem simplificada em arquivo de imagem - em que ficava surpreso com a semelhança entre o baterista do Nirvana e o cantor e guitarrista do Foo Fighters, ignorando o fato óbvio de que se trata exatamente da mesma pessoa.

Já dá para perceber que, daqui a cinco anos, até os fãs da Legião Urbana se esquecerão dessas rádios. Até porque o ouvinte-padrão da 89 e Cidade prefere o Charlie Brown Jr. que já tem seus mortos para admiração. E durante muito tempo os fãs de Charlie Brown Jr. esculhambaram a Legião Urbana, para só depois embarcar na saudade por Renato Russo.

E o Rock Brasil hoje migrou para rádios de MPB, coisa que só agora começa a ser parcialmente revertida com um programa sobre rock brasileiro veiculado pela Kiss FM, o programa BR 102, mas mesmo assim restrito aos nomes das grandes gravadoras.

Se os ouvintes da 89 e Cidade também acham que até Mamonas Assassinas é "puro rock'n'roll", já dá para perceber então qual será a próxima debandada. Só sobrará nos cardápios dessas "rádios rock" um Capital Inicial que atualmente está mais pop e se apresenta até em eventos com ídolos brega-popularescos.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Rádio Cidade não tem serventia para a cultura rock


Do contrário do que dizem as informações oficiais, a volta da Rádio Cidade ao rótulo "roqueiro" pouco diz ao fortalecimento da cultura rock, num contexto em que a 89 FM anda enfraquecida dentro do público roqueiro - ela só atrai fãs de pop juvenil que gostam de "rock mais comercial" - e não conseguiu colocar o rock acima sequer do "funk ostentação" no mercado jovem paulista.

Na verdade, a Rádio Cidade, hoje, não tem a menor serventia para a cultura rock. O retorno, ocorrido no dia 10 de março último, encontra uma situação muito diferente daquela de 1995 ou mesmo de 2006. E que está deixando a 89 FM, em São Paulo, com cara de rádio mofada e frouxa.

Em 2006, quando a Cidade e a 89 largaram o rock, a grande mídia ainda exercia sua supremacia sobre a opinião pública. Folha de São Paulo e Veja, já reacionários, ainda gozavam de alta reputação. A Internet estava incipiente e o mainstream da opinião pública estava nas mãos de internautas conservadores, muitos deles bastante reacionários, como os chamados troleiros (trollers).

Além disso, a redescoberta do rock mais antigo e mais alternativo na Internet era incipiente e praticamente restrita ao público estrangeiro. Hoje isso já se reflete muito mais no Brasil, e hoje até pessoas com menos de 25 anos são mais receptivas a nomes como Gentle Giant, Byrds e Seeds.

Naquela época, muitas pessoas não tinham exata noção do que era uma verdadeira rádio de rock e o que era uma falsa rádio de rock. Se tinha o rótulo "roqueiro", tudo era "verdadeiro". Além disso, a visão provinciana, que continua valendo hoje, era muito pior antes, porque qualquer questionamento ao "estabelecido" era alvo de represálias digitais.

Atualmente, o reacionarismo digital foi desmascarado, em boa parte se não por completo, e atualmente se tem mais liberdade para questionar o "estabelecido", até porque o possível reaça de plantão também tem mais risco de "levar uma surra" verbal de outros internautas.

Por isso, a Rádio Cidade volta sem o glamour esperado, apesar do "bom desempenho", como a 89 FM que joga sucessos do rock para fãs de Rihanna e Justin Bieber. Na Rádio Cidade, ocorrerá o mesmo de 1995, com a diferença que ela terá à frente a concorrência da Kiss FM que, em que pese algumas farofices do poser metal, se esforça em se aprofundar na cobertura do rock.

RÁDIO DE ROCK EXIGE PERSONALIDADE, NÃO SÓ "VITROLÃO"

Os tempos são tão outros que as fórmulas adotadas pelo rádio há muitos anos atrás, ainda lançadas como se fossem "novidade" e bajuladas até pelas colunas e portais de rádio do Brasil, são hoje mofadas. O "Aemão de FM", por exemplo, teria sua razão de ser há 40 anos, e hoje nem a linguagem "renovada" da Bradesco Esportes FM consegue atrair audiência.

A baixa audiência, ocultada por um Ibope que ainda mostra rádios com "100 mil ouvintes" - índice inalcançável no contexto de crise midiática de hoje - , já faz diversas rádios demitirem funcionários, o que já ocorreu, no Rio, com emissoras como Bradesco, Band News, Globo e Tupi, apesar de seus "excelentes" pontos de audiência oficiais.

Dentro desse quadro, se a Rádio Cidade e a 89 FM pareciam muito velhas em 2006, hoje parecem tão mofadas que o jeito é elas assumirem que adotam um perfil "mais comercial" e "jovem". Elas desistiram de serem consideradas emissoras "radicalmente rock", depois da gafe de um enfurecido "Roger Strauss", reacionário ex-produtor da Cidade, ter dito que odeia os clássicos do rock.

Mas o contexto em que as duas rádios se encontram é ainda mais distante do universo roqueiro do que se imagina, o que recomenda que elas não mais estejam vinculadas no contexto de rádios de rock, mas no de rádios de pop.

Isso se explica pelo fato de que a linguagem e a mentalidade da Cidade e 89 não diferem muito de uma Mix, Jovem Pan 2 e Transamérica (esta ainda mais decadente, voltada a atender interesses pessoais de DJs e dirigentes esportivos - seu dono e banqueiro Aloísio Faria é amigo de Ricardo Teixeira).

Rádio de rock não se faz só com "vitrolão roqueiro" ou coisa parecida. Também são insuficientes artifícios como vinhetas em que alguém fala a palavra "rock" como se estivesse arrotando, ou um logotipo esperto que coloca esta mesma palavrinha mágica de quatro letras em destaque. Do mesmo modo, são inúteis também declarações de locutores, produtores e gerentes artísticos neste sentido.

MICHAEL JACKSON, JONAS BROTHERS, PINK

O que a Rádio Cidade e a 89 FM têm que encarar e assumir é que seu contexto não tem mais a ver com radialismo rock, mas com o radialismo pop mais convencional. Elas estão num contexto em que Michael Jackson é consagrado na posteridade por ter gravado "Beat It" e "Black or White", e um sem-número de ídolos teen alternam popices dançantes com canções levemente roqueiras.

Hoje fãs de Iron Maiden, AC/DC, Van Halen e outros, mesmo nomes como Ramones e Clash, não querem mais ouvir rádios como a Cidade e a 89, porque elas só tocarão aquilo que já está mais manjado nos discos que esses fãs possuem há anos em suas coleções. Até fãs como os de Oasis, Pearl Jam, Blur e Foo Fighters, só para dizer os mais recentes, estão se afastando dessas rádios.

O que a Cidade e a 89 fazem é apenas tocar um roquinho "acessível" para fãs de pop. Isso é tão claro que, na volta da Cidade, pouco se falou fora a reprise do "Invasão da Cidade" com a Legião Urbana (programa que foi ao ar quando a Cidade ainda tocava Michael Jackson e Madonna na sua programação).

As duas rádios são uma espécie de "Restart radiofônico", e isso nada tem de calunioso. Vá ouvir programas como "Hora dos Perdidos", "Esquenta", "Pressão Total" ou mesmo o "Temos Vagas", e a analogia ideológica com a banda de Pe Lanza é exatamente a mesma.

Enquanto isso, é uma tendência mundial que essa abordagem das duas rádios reflita muito mais o que nomes como Demi Lovato, Jonas Brothers, Shakira, Pink, Kelly Clarkson, Avril Lavigne, o seriado Glee ou mesmo Britney Spears cantando "I Love Rock'n'roll".

Lá fora, existe um público que coloca Offspring e Limp Biskit e Jennifer Lopez e Beyoncé na mesma coleção de CDs e essa realidade já existe há um tempo. O próprio Jay Z que é marido e parceiro de Beyoncé também gravou disco com o Linkin Park, banda similar ao Limp Biskit.

Ninguém posa de roqueiro-jaquetão. Não faz mais sentido aquela atitude contraditória da Rádio Cidade alternar um astral "baixo Gávea" ensolarado e alegre e um mau humor muito mal copiado de gangues de motoqueiros heavy. Ninguém aguenta mais essa atitude barra-forçada, de um radicalismo roqueiro que na verdade não existe.

Portanto, se a Rádio Cidade queria ser conhecida como a rádio que fez história na cultura rock, é bom esquecer. Mesmo as posturas condescendentes com essa fantasia toda, ditas por muita gente boa, se apagarão ao longo do tempo. A verdade não está no que a publicidade do rádio, nem sempre verídica, diz ou quer nos fazer crer. Hoje temos posturas cada vez mais céticas e críticas sobre o setor.

A Rádio Cidade, pelo menos, não voltou com a palavra "rock" no logotipo. Melhor assim. Até porque o que voltou não foi uma rádio de rock, aliás uma coisa que a Cidade nunca foi realmente. O que voltou é novamente uma rádio pop que toca sucessos do rock. E que não supre sequer as necessidades básicas dos fãs de rock, mesmo os mais iniciantes.